marienbad


                                                      ricardo pinto de souza


número 5

Tempo. Das descrições das revoluções, o que sempre me intrigou, e, francamente, aquilo que sempre me fez imaginar se eu próprio teria o estofo para agir de uma forma digna nestes momentos de glória e terror, foi a maneira que o tempo era sentido pelos homens. A imagem mais típica é um comentário de Walter Benjamin em “Teses sobre o conceito de história”, de que durante a revolução francesa era comum as torres de relógio serem alvejadas: o tempo era o inimigo, mas ao mesmo tempo ele já não fazia mais sentido. O momento era tão pleno que o presente se sobrepunha a qualquer outra coisa, memória ou previdência, melancolia ou preocupação. Simplesmente, as horas não passavam, não porque as pessoas estivessem perdidas no torpor do cotidiano ou porque a irreversibilidade mórbida do tempo biológico tivesse sido paralisada; antes, o império do tempo sobre o homem era suspenso porque este deixava de se importar. Nada mais importava, e é este absoluto da entrega não propriamente a uma causa, mas à sensação (como descrever de outra forma?) de que finalmente a vida real tinha começado, este cerne de plenitude foi o que sempre me atraiu, me assustou, também. A pergunta ética, no caso, é se eu seria capaz disso, se este abandono seria possível sem que eu sofresse uma lobotomia.

Os antigos costumavam associar esta possibilidade ao divino e a seus avatares na experiência humana: o amor, a morte, a loucura. O “bendito o dia, bendita a hora” de quando Petrarca encontra Laura pela primeira vez; o mito de certas seitas gnósticas de que o corpo que expira na cruz não é Cristo, mas uma cópia, um boneco: o Cristo foi retirado para fora da realidade momentos antes da morte e de lá preside o tempo dos tempos; rei Lear lutando contra as ondas no fim da peça. Mas nunca a possibilidade de que a experiência concreta do tempo, de homens entre homens seguindo com a vida, pudesse ser apagada, a não ser ao custo da própria vida, como os comedores de ópio que Homero descreve. De resto, o tempo é o desespero do econômico: o tempo que consome e o tempo que é consumido “nos mesmos sem roteiro tristes périplos”. Mas não é este o tempo sonhado na fagulha mínima da infância, nem entre o calor da amizade e do sexo, nem, finalmente, na pedra irremovível da boa causa. Tampouco, porém, esse tempo mais generoso se dissolve em um absoluto. Este só virá, sabe-se lá como, com a experiência política da revolução, o que é estranho, porque, de todas as formas de suspensão do tempo, amor, morte e loucura, a revolução é exatamente a menos defensável, a mais passível de crítica e em certos momentos a experiência mais farsesca e cínica. Talvez em um mundo moderno aquilo que as revoluções possuem de festa comunitária seja o responsável por seu poder, um último rito comunal por entre a solidão sujeitada da modernidade. Talvez este poder de romper a sensação do tempo venha do caráter paradoxal do processo revolucionário, ao mesmo tempo o pináculo da política, a experiência política por excelência, mas também um processo que toca a fé e sua exigência infinita. Humano e sobre-humano se misturam aqui, ambos em seu estado mais puro e violento, quase como se o acontecimento fosse a própria natureza.

E agora que pessoalmente ultrapasso o que seria a juventude, e que quase surpreso registro tanto a crueldade quanto a compaixão de que fui capaz ao longo da minha breve, humilde vida, fico ainda pensando se seria capaz de viver este abandono, ou de ao menos cultivá-lo como uma possibilidade. Os relógios de minha casa continuam funcionando, e suspeito que a próxima revolução esteja a algumas, muitas décadas de distância. É, então, o tipo de pergunta que nunca serei obrigado a responder de verdade, mas sua simples apresentação faz com que o cérebro funcione de uma forma mais acelerada. Eu já amei, mas não como Petrarca, e passei longe da tortura ou da agonia, e não há em meu registro nada, creio, que possa ser considerado loucura. Pelo menos nunca pretendi parar o ritmo das marés. Então, posso dizer que ainda não conheço de fato o tempo, senão sua face mais ordinária e desanimadora. No entanto… No entanto há sempre a comichão, ou a ilusão, ou a previdência, quiçá, de se imaginar suspenso no meio de um furacão. Este abismo possível é ainda o que informa de longe, de fora do tempo, minhas ações. Se um dia vivê-lo em sua forma completa, prometo narrar estes dias e sucessos com a maior franqueza possível. Até lá sinto o sabor de um tempo suspenso como o cheiro de chuva quando a pressão cai. Ser digno do que venha depois ou do que talvez nunca venha é aquilo que penso garante o sentido de meus gestos, de todos, na verdade, embora a maioria das pessoas negaria de pronto que esperam qualquer coisa, ainda mais o fim do tempo. Mas ele está lá. (a ser retomado).



Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

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