para falar de arquivo: formação e manutenção de acervos literários - otávio rios
Livros: cotidianamente estamos cercados por eles. Ocupam as prateleiras das livrarias, as estantes das bibliotecas, os móveis em casa de amigos. Lemos muitos durante a vida, alguns escrevem outros no decurso desta. Pensemos, então, não sobre o objeto livro, com o fetiche que, por vezes, permeiam tais reflexões, mas sobre o processo genético que o antecede e, sobretudo, acerca da destinação que é dada aos materiais advindos desse processo. É essa proposta que este texto pretende seguir.
Folhas soltas em que se percebe o início da estruturação de narrativas, manuscritos com correções do autor que deseja aperfeiçoar seu texto literário, papéis inéditos, correspondência trocada com outros escritores, diários pessoais, recortes de jornais. Esse tipo de material costuma integrar os acervos de escritores, cuja função primordial é a preservação de determinado patrimônio cultural a fim de que os materiais encontrados sejam organizados, catalogados e disponibilizados a pesquisadores e estudiosos em geral. Além do desejo de preservar as peças que compõem cada acervo, muitas vezes encontradas em estado de deterioramento avançado, a divulgação do material é uma das metas que as equipes que trabalham com arquivos almejam, colocando-os, não raras vezes, expostos em bibliotecas púbicas, centros culturais e instituições de pesquisa.
A formação de arquivos de escritores não segue um processo padronizado, único, e resulta da prática do colecionismo, de onde se infere que aquele material que está sendo conservado possui valor histórico-artístico[1]. Ivo Castro (1990, p. 13) propõe, embora sem se aprofundar no tema, uma tripartição dos tipos de arquivos, classificando-os em artificiais (ou terciários), passivos e ativos. Dizem-se terciários quando outrem, que não o próprio autor, acumula manuscritos dispersos, correspondências, notícias publicadas em jornais e revistas; passivos quando resultam de coleção formada pelo próprio autor, que vai guardando seus papéis sem um objetivo definido e sem uma organização precisa; e ativos quando o produtor dos materiais possui o objetivo claro de legar a coleção em formação à posteridade, organizando-a cuidadosamente. Sobre esse último importa anotar que, por ter sido pensado como arquivo, pode refletir a imagem que o autor deseja transmitir de si, o que implica em supressões de peças, destaque de outras e, até mesmo, invenção de algumas. Em arquivos literários ativos, o autor, mesmo que tentando disfarçar sua intenção, deixa transparecer o desejo de imortalização e inserção no cânone literário. Certamente o mais representativo dentre os arquivos ativos em língua portuguesa seja o de Fernando Pessoa, escritor que já carrega nos ombros tentativas relativamente bem-sucedidas de configuração de um mito literário. E aqui faço alusão especificamente às cartas remetidas a Adolfo Casais Monteiro em que relata a gênese dos heterônimos ou ainda à escrita da série O Guardador de rebanhos. Entretanto, embora a maioria dos arquivistas acredite que o material de Pessoa tenha sofrido intervenção (desorganização) em data posterior à morte do poeta, há aqueles que, apesar dos indícios, preferem crer na formação de um arquivo passivo.
Sejam terciários, passivos ou ativos, os arquivos evidenciam uma nova concepção da obra literária e da figura autoral, motivo pelo qual se faz necessário que os materiais advindos da criação literária e que circundam as esferas pública e privada da vida do autor sejam colecionados e conservados, ação que ganha força, sobretudo, a partir do romantismo, quando a noção de autor como a conhecemos começa a se estabelecer (cf. BARTHES, 2004).
A prática da manutenção e preservação de arquivos literários está atrelada a uma política de Estado, seja porque os materiais envolvidos são de interesse coletivo seja porque é dispendioso custear a conservação dos acervos. Além da consolidação da noção de autor e de obra literária no século dezenove, o surgimento dos primeiros espólios dependeu da visão crítica de estudiosos que viram nesse tipo de material uma farta fonte de pesquisa, bem como de bibliotecas e instituições universitárias que acolheram a nova proposta de investigação e socialização desses materiais, forçando-os a serem colocados sob o manto do Estado moderno. A prática arquivística teve início na Alemanha e tem entre seus destaques desse período o filósofo Wilhelm Dilthey:
Nos espaços das bibliotecas, eles tomavam lugar ao lado de todos os outros documentos preciosos, literários ou não. Foi preciso esperar a passagem do século XIX para o século XX para vermos as cortinas se abrirem sobre um outro cenário intelectual. Em 1889, o filósofo alemão Wilhelm Dilthey pronunciou seu célebre discurso, intitulado ‘Os Arquivos Literários’, que foi a primeira grande defesa deste novo conceito. Trata-se, diz ele, de salvaguardar esses ‘testemunhos diretos’ da criação que são importantes ‘para o historiador da literatura, assim como para o esteticista’. Sete anos mais tarde, a mais prestigiosa dessas instituições - o ‘Goethe-und Schiller-Archiv’ – será efetivamente inaugurada em Weimar por uma alteza real, e as criações de centros literários vão, a partir daí, se multiplicar e servir de exemplo na Europa. (HAY, 2003: 68-69).
Por pouco Dilthey não criou a crítica genética, pois apenas lhe faltou, segundo Louis Hay (2003, p. 69), estabelecer a relação de investigação dos bastidores da criação literária por meio da prática arquivística. É necessário destacar que a época de Wilhelm Dilthey é a mesma de Mallarmé e Valéry, jovens escritores franceses que já apregoavam que “magia da literatura não se dá mais entre o leitor e a obra [...], mas entre o artista e sua criação” (HAY, 2003, p. 69-70). Este novo conceito de literatura estabelece uma nova relação entre o produtor e seus manuscritos e antetextos em geral, que passa a se manifestar no desejo de conservação de seus originais e apógrafos.
É possível que alguém se pergunte sobre a conservação de textos mais antigos, especialmente incunábulos e documentos legados da Antigüidade Clássica, e os coloque em posição de verdadeiros arquivos. Seriam os textos encontrados na Biblioteca Vaticana de Roma, Staatsbibliothek de Berlim ou, no caso português, Torre do Tombo e Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça arquivos literários? A resposta à pergunta exige que se façam ressalvas e considerações. A primeira delas é que para se configurar como arquivo é preciso que se tenha uma coleção de objetos de autoria certa, embora algumas vezes venha a se questionar e problematizar, e que esse acervo seja pertencente e/ou relacionado a um mesmo autor. Segundo que tais materiais devem pertencer a um autor que tenha produzido nos últimos três séculos, via de regra, a fim de que a prática arquivística advenha da autoridade e da aura[2] que emana dos objetos colecionados, pois o que difere um arquivo literário de outros documentos e objetos raros é a relação que aquele estabelece entre autor e o processo de criação. Terceiro que se configure de manuscritos e outros objetos autógrafos, além de outras ao menos supervisionadas pelo próprio autor ou que a ele remeta (caso de textos de crítica literária publicados em revistas e jornais). Assim, embora as coleções preservadas nas bibliotecas acima referidas sejam de inegável valor cultural e artístico, não se enquadrariam no conceito de arquivo literário. Muitas dessas obras são, inclusive, de autoria desconhecida.
No contexto brasileiro, destacam-se os arquivos literários de Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado e Manuel Bandeira, e, no âmbito português, possuindo maior projeção internacional, os espólios de Eça de Queirós e Fernando Pessoa, cujos projetos editoriais, visando à restituição dos textos originais, são coordenados e liderados por Carlos Reis e Ivo Castro, respectivamente, e que envolvem, com freqüência, críticos textuais brasileiros como Cleonice Berardinelli, na Equipa Pessoa, e Ceila Ferreira Martins, na Equipa Eça de Queirós, esta última se encarregando, atualmente, da edição crítico-genética de O Egipto e outros relatos (cf. MARTINS, 2007)[3]. Encontram-se em processo de organização os materiais de Rachel de Queiroz, que, brevemente, estarão disponíveis a consultas de especialistas na Fundação Cultural de Quixadá, na cidade de mesmo nome, no sertão central do Ceará. O arquivo da escritora é um exemplo em que o financiamento público se faz necessário não somente à manutenção e à conservação do acervo, mas, também, no fomento de pesquisadores por meio de bolsas e aquisição de instalações e equipamentos, sobretudo por se tratar de uma região que ainda engatinha nessa perspectiva investigativa.
Além do material da escritora cearense, cuja disponibilização do acervo é bastante aguardada pela comunidade acadêmica, destaco os espólios de outros dois mestres de nossa língua, que, além da produção ficcional, nos legaram um pensamento teórico-crítico e a proposição de novos modelos para a arte literária: Paulo Leminski e Raul Brandão. O arquivo de Leminski será estudado por Renata Moreira, que desenvolve Tese na Universidade Federal de Minas Gerais; o de Brandão, já digitalizado e microfilmado pela Biblioteca Nacional de Lisboa, está depositado na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, desde que os herdeiros do escritor requisitaram o legado cultural brandoniano, e é meu objeto de investigação de doutorado, em curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
NOTAS
[1] E desse valor advém o valor financeiro atribuído a arquivos literários ao redor do mundo.
[2] No sentido baudelairiano e benjaminiano do termo.
[3] Tanto a Equipa Pessoa quanto a Equipa Eça de Queirós estão inseridas em uma política editorial de restituição das formas originais dos textos de seus autores, além de enveredar, bastantes vezes, pela genética textual.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 65-75.
CASTRO, Ivo. Enquanto os escritores escreverem… (Situação da crítica textual moderna). Conferência plenária, IX Congresso da ALFAL. Campinas, Mimeo, 65p. 1990.
GOULART, Rosa Maria. Literatura e Teoria da Literatura em tempos de crise. Angelus Novus: Braga – Portugal, 2001.
HAY, Louis. A literatura sai dos Archivos. Trad. Renato de Mello. In: SOUZA, Eneida Maria de & MIRANDA, Wander Mello. Arquivos literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. p. 65-81.
MARTINS, Ceila Ferreira. Para uma definição de Crítica Textual: o caso da edição crítico-genética de O Egipto e outros relatos de Eça de Queirós. In: Atas. Edição de Texto. II Congresso Virtual do Departamento de Literaturas Românicas, Universidade de Lisboa, Lisboa. Arquivo Word [cedido pela autora], 11p. 2007.
ROTHIER, Marília. Reciclando o lixo literário: os arquivos de escritores. In: Palavra, Rio de Janeiro, v. 7, p. 68-75, 2001.
SOUZA, Eneida Maria de & MIRANDA, Wander Mello (org.). Arquivos literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
Otávio Rios é Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a Dissertação A experiência estética de Raul Brandão: variantes textuais e construção narrativa em Húmus, onde cursa, atualmente, Doutorado. Tem interesse nos estudos de arquivos literários, memória e história da literatura, teoria do romance, estética da recepção, crítica textual, e temas que entrelacem decadentismo e modernidade. Para contato com o autor, enviar e-mail para otaviorios@ufrj.br
