poemas - gastão cruz



A COLHER

Reabro uma
gaveta da infância
e encontro a colher em desuso caída
a sopa lentamente se escoando
no prato fundo:

a vida
em certos dias tinha a forma
daquele objecto antigo
tocando-me nos
lábios com um calor excessivo



NO SOL

Irás achar que foi um erro e foi
um erro, que nada se passou
e na verdade nada acontece nunca
de verdade: a verdade seria

eterna e o acontecido pertence
aos eclipses do tempo precipícios
em que depois da morte ficam vivos,
como se o não estivessem, os momentos

caídos;
foi isso um erro porque nada existe
nem nós, já ao império das vagas
submetidos,

porém na praia oblíqua onde estivemos
permanecer no sol foi tudo o que quisemos



AO VER AS COISAS

Ao ver as coisas com o seu instável
halo sobrevivente, acaso morto
porque já não o vê quem antes via,
a dor de olhar trespassa

e não apaga a jovem labareda
que é delas a não vida e foi a vida
dos que jovens as viram e através
de mim vêem ainda



O QUE FEZ SENTIDO

Reformulamos o amor porém se fórmula
não existia como repeti-la?

É preciso criar um eco ambíguo
que deixe de ser eco e tome a forma

do que viver possa ter sido:
encontraremos restos do sentido

que num instante incerto alguma coisa fez
e nunca poderá ser repetido




* “A colher” pertence ao livro REPERCUSSÃO (2004); “No sol”, ao livro A MOEDA DO TEMPO (2006); “O que fez sentido” e “Ao ver as coisas” são inéditos.



Gastão Cruz, poeta e crítico de poesia, nasceu em Faro, em 20 de Julho de 1941.
Licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Entre 1980 e 1986, foi leitor de português na Universidade de Londres (King’s College). É um dos diretores da revista de poesia Relâmpago. O seu livro de poemas mais recente é A moeda do tempo (2006).

Jump to the top of this page