carta a henri cazalis (1864) - stéphane mallarmé


Tradução de Liana Carreira.

Mon Henri,

Je t’envoie enfin ce poeme de l’Azur que tu semblais si désireux de posséder. Je l’ai travaillé, ces derniers jours, et je ne te cacherai pas qu’il m’a donné infiniment de mal, - outre qu’avant de prendre la plume il fallait, pour conquérir un moment de lucidité parfaite, terrasser ma navrante Impuissance. Il m’a donné beaucoup de mal, parce que bannissant mille gracieusetés lyriques et beaux vers qui hantaient incessamment ma cervelle, j’ai voulu rester implacablement dans mon sujet. Je te jure qu’il n’y a pas un mot qui ne m’ait couté plusieurs heures de recherche, et que le premier mot, qui revêt la premiere idée, outre qu’il tend par lui-même à l’effet général du poème, sert encore à préparer le dernier. L’effett produit, sans une dissonance, sans une fioriture, même adorable, qui distraie, — voilà ce que je cherche. — Je suis sur, m’étant lu les vers à moi-même, deux cents fois peut-être, qu’il est atteint. Reste maintenant l’autre côté à envisager, le côté esthétique. Est-ce beau, y a-t-il un reflet de la Beauté? Ici, commencerait mon immodestie si je parlais, et c’est à toi de décider.

Henri, qu’il y a loin de ces théories de composition littéraires à la façon dont notre glorieux Emmanuel prend une poignée d’étoiles dans la voie lactée pour les semer sur le papier, et les laisser se former au hasard en constellations imprévues! Et comme son âme enthousiasme [sic], ivre d’inspiration, reculerait d’horreur devant ma façon de travailler! Il est le poète lyrique, dans tout son admirable épanchement. Toutefois, plus j’irai, plus je serai fidéle à ces séveres idées que m’a léguées mon grand maître Edgar Poe.

Le poème inoui du Corbeau a été ainsi fait. Et l’âme du lecteur jouit absolument comme le poète a voulu qu’elle jouit. Elle ne ressent pas une impression autre que celles sur lesquelles il avait compté. - Ainsi, suis ma pensée dans mon poème, et vois si c’est là ce que tu as senti en me lisant. Pour débuter d’une façon plus large, et approfondir l’ensemble, je ne parais pas dans la première strophe. L’azur torture l’impuissant en général. Dans la seconde, on commence à se douter, par ma fuite devant le ciel possesseur, que je souffre de cette terrible maladie. Je prépare dans cette strophe encore, par une forfanterie blasphématoire Et quelle nuit hagarde, l’idée étrange d’invoquer les brouillard. La prière au Cher Ennui confirme mon impuissance. Dans la troisième strophe, je suis forcené comme l’homme qui voit réussir son voeu acharné. La quatrième commence par une exclamation grotesque, d’écolier délivré. Le ciel est mort! Et, de suite, muni de cette admirable certitude, j’implore la Matière. Voilà bien Ia joie de I’Impuissant. Las du mal qui me ronge, je veux goûter au bonheur commun de la foule, et attendre patiemment la mort obscure… Je dis: Je veux! Mais l’ ennemi est un spectre, le ciel mort revient, et je l’entends qui chante dans les cloches bleues. Il passe, indolent et vainqueur, sans se salir à cette brume et me transperce simplement. A quoi je m’écrie, plein d’orgueil et ne voyant pas là un juste châtiment de ma lâcheté, que j ‘ai une immense agonie. Je veux fuir encore, mais je sens mon tort et avoue que je suis hanté. Il fallait toute cette poignante révélation pour motiver le cri sincére, et bizarre, de la fin, l’azur… - Tu le vois, pour ceux qui, comme Emmanuel et comme toi, cherchent dans un poème autre chose que la musique du vers, il y a là un vrai drame. Et ç’a été une terribIe difficulté de combiner, dans une juste harmonie, l’élérrlent dramatique, hostile à l’idée de Poésie pure et subjective, avec la sérénité et le calme de lignes nécessaires à la Beauté.

Mais tu vas me dire que voilà beaucoup d’embarras pour des vers qui en sont bien peu dignes. Je le sais. Cela, toutefois, m’a amusé de t’indiquer comment je juge et je conçois un poème. Abstrais de ces lignes toute allusion à moi, et tout ce qui a rapport à mes vers, et lis ces quatre pages, froidement, comme l’ébauche, fort mal écrite et informe, d’un article d’art.

Tuus,
STÉPHANE MALLARMÉ.

Je ne me relis pas. Et je te plains d’avoir à me lire, povero!




Manhã de quinta-feira
7 de janeiro de 1864

Meu Henri,

Enfim envio-lhe este poema sobre o Azul, que você parecia tão desejoso de possuir. Trabalhei nele, nestes últimos dias, e não esconderei que ele me causou um desconforto infinito – além do fato de que antes de pegar a pena era preciso, para conquistar um momento de perfeita lucidez, demolir minha desoladora Impotência. Isso me causou muito desconforto, pois ao banir mil graciosidades líricas e belos versos que assombravam incessantemente meu cérebro, eu quis permanecer implacavelmente em meu tema. Juro a você que não há uma palavra que não me tenha custado várias horas de pesquisa, e que a primeira palavra, que reveste a primeira idéia, além de tender por si própria ao efeito geral do poema, serve ainda para preparar a última. O efeito produzido, sem nenhuma dissonância, sem nenhum floreado, mesmo adorável, que distraia – é isso que procuro. Tendo lido os versos para mim mesmo, duzentas vezes talvez, estou certo de que ele foi alcançado. Resta agora o outro lado a considerar, o lado estético. São belos, há neles um reflexo da Beleza? Aqui começaria minha imodéstia se eu falasse, e cabe a você decidir.

Henri, como estamos longe daquelas teorias de composição literárias à maneira das quais nosso glorioso Emmanuel pega um punhado de estrelas na via Láctea para semeá-las sobre o papel, e deixá-las se formarem ao acaso em constelações imprevistas! E como sua alma entusiasmo [sic], ébria de inspiração, recuaria de horror diante de minha maneira de trabalhar! Ele é o poeta lírico em toda a sua admirável efusão. Todavia, quanto mais eu avançar, mais serei fiel às severas idéias que me foram legadas por meu grande mestre Edgar Poe.

O poema inaudito do Corvo foi feito assim. E a alma do leitor goza absolutamente como o poeta quis que ela gozasse. Ela não sente uma impressão diferente daquelas com as quais ele havia contado. – Assim, siga meu pensamento em meu poema, e veja se é isso que você sentiu ao me ler. Para começar de uma maneira mais ampla, e aprofundar o todo, eu não apareço na primeira estrofe. O azul tortura o impotente em geral. Na segunda, começa-se a pressentir, por minha fuga diante do céu possuidor, que sofro dessa terrível doença. Preparo ainda nessa estrofe, por uma fanfarrice blasfematória Quelle nuit hagarde/ Que noite selvagem, a estranha idéia de invocar as névoas. A súplica ao Cher Ennui/Caro Tédio confirma minha impotência. Na terceira estrofe, enfureço-me como o homem que vê realizado seu desejo mais ardoroso. A quarta começa com uma exclamação grotesca, de colegial libertado. O céu está morto! Em seguida, munido de admirável certeza, imploro à Matéria. Eis aí a alegria do Impotente. Cansado do mal que me corrói, quero provar a simples ventura da multidão, e esperar pacientemente a morte obscura… Digo: Eu quero! Mas o inimigo é um espectro, o céu morto reaparece e eu o escuto cantando nos sinos azuis. Ele passa, indolente e vitorioso, sem sujar-se nessa bruma e simplesmente me atravessa. Diante do que eu exclamo, cheio de orgulho e não vendo aí um justo castigo para minha covardia, que possuo uma imensa agonia. Quero fugir ainda, mas sinto meu erro e atesto que estou possuído. Foi preciso toda essa lancinante revelação para motivar o grito sincero, e bizarro, do fim, o azul… – Veja que, para aqueles que, como você e Emmanuel, procuram em um poema outra coisa além da música do verso, existe aí um verdadeiro drama. E foi terrivelmente difícil combinar, em uma justa harmonia, o elemento dramático, hostil à idéia de Poesia pura e subjetiva, com a serenidade e a calma de linhas necessárias à Beleza.

Mas você me dirá que são muitos obstáculos para versos que são bem pouco dignos deles. Bem o sei. Entretanto, divertiu-me indicar-lhe como julgo e concebo um poema. Abstraia destas linhas qualquer alusão a mim, qualquer coisa que tenha ligação com meus versos, e leia estas quatro páginas, friamente, como o esboço, muito mal escrito e informe, de um artigo de arte.

Tuus,
STÉPHANE MALLARMÉ

Não vou me reler. E lamento-o por você ter que me ler, povero!

Liana Carreira Martins é graduanda em Português-Francês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Essa tradução faz parte de um projeto de pesquisa que estuda as cartas do poeta francês Stephane Mallarmé, sob orientação do professor Marcelo Jacques de Moraes.

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