kill the vultures – the careless flame – michaël patin


O texto abaixo foi traduzido do francês por Ana Ferreira Adão.


Sim, um beat de rap pode abalar as fundações da música moderna e nos dar a impressão de derrubar um prédio de trinta andares. Em “Moonshine”, de Kill The Vultures, o prédio em questão é escoltado por um velho trompete corroído pela decadência urbana. E isso é tão-somente a introdução de The Careless Flame, um aperitivo, o hall de entrada de uma obra árida e tórrida, irrigada pelo sangue dos mundos. À chegada das percussões em “Dirty”, vê-se toda a África reclamar a sua dívida sob a forma de um enxame de abelhas surdas e majestosas, antes de tornar-se um monstruoso tambor de guerra, como um King Kong que ataca e é atacado, em “The Spider’s Eye”. A curva estreita de um saxofone free jazz que dilacera o ritmo nos informa sobre a irredutibilidade de seus autores, destruidores do conforto, cujos mestres se nomeiam, talvez, Last Poets, Tom Waits, Albert Ayler e Company Flow. Os soldados vermelhos de Kill The Vultures não são agem como prisioneiros: sua música é um ataque de hunos na planície, um massacre propagado contra o êxtase ambiente. A partir deles, a erva espessa das claras consciências não se contorce mais. Uma força ancestral se encarna nesses guerreiros do som e da rima que são, aqui, seus barqueiros armados. Além disso, não é ao acaso que Crescent Moon, o MC branco, assume a voz de um bruxo manancial, no momento em que toma posse do microfone. Seu bastão contorcido, apontado contra o centro da Terra, carrega o fardo dos tempos e o segredo da recordação, nada contra o turbilhão e nos convida a compartilhar de tal fardo. Ainda, o álbum combate o historicismo à maneira de Walter Benjamin, ganhando a possibilidade de propagar um humanismo do coração, um desejo irracional de arcaísmo. “É sombrio”, exclama-se à primeira ouvida, ecoando ainda o coro dos vencedores e dos choques cotidianos, indiferentes à nossa própria morosidade. Quando vem novamente o dia de confiança, a hora da raiva salvadora, descobre-se aqui a fogueira sangrenta das origens e o machado da redenção. Arrancado da temporalidade, entregue sem aspirina ou manual, The Careless Flame é mais que um disco: é um mantra.


Michaël Patin, francês, é músico e crítico da revista Magic, de Paris. Seu trabalho com o grupo Bellegarde pode ser conferido em: http://www.cqfd.com/bellegardemusic

Jump to the top of this page