marienbad


                                                      ricardo pinto de souza


6. Delicadeza. Em “Canção da torre mais alta” Rimbaud escreve dois versos famosos, possivelmente seus mais conhecidos, talvez dos mais conhecidos de qualquer poeta, “Por delicadeza/ perdi minha vida”. Como tudo em Rimbaud esta declaração se refere a vida, a linguagem, a história, seu objeto é aquele arquétipo meio nublado que é o sujeito rimbaudiano, a fusão estranha entre vários elementos pulsantes e conflituosos e que, obviamente, é o humano pleno, sem recalques e sem véus. Este sujeito que quiçá poderá se transfigurar em um “filho do sol”, apesar de tudo, como ele diz em “Vagabundos”.

Ambas expressões são muito conhecidas, e o ranço biográfico jogou-as de cá pra lá de acordo com o intérprete ou tradutor, às vezes expressão angélica, às vezes ironia iconoclasta, às vezes iluminação visionária. Talvez possamos fugir desse pecado se nos concentrarmos em simplesmente admirar estas palavras estranhas sem nos preocuparmos com um sentido final ou com a lealdade devida, admito, ao autor. “Por delicadeza/ perdi minha vida” impressiona pela violência surda e sim, delicada, que traz. Poucas palavras são mais fortes para dizer a grande armadilha da moral que é a boa intenção. Seu contrário perfeito seria a expressão de Marx em A miséria da filosofia, sobre “o lado mau que faz história” quando atiça o conflito. E, claro, de boas intenções, como de covardes, o inferno está cheio, como o próprio Rimbaud viria a provar na pele.

De qualquer forma a força dos versos está em tornar a delicadeza esta coisa perversa e urânica, não o prazer de carícia ou a compaixão, mas a ilusão mais ou menos permanente dos homens quando, diante da contingência e do sofrimento, decidem que o melhor é apagar o próprio interesse. Delicadeza é então uma das virtudes de rebanho que formam as correntes e correias da sociedade. A questão é que cada palavra de Rimbaud, cada uma de suas expressões, cada inflexão pertencem não ao rebanho ou ao tempo do rebanho, mas ao tempo incerto do dilúvio, palavra que ele utilizaria repetidamente em seus poemas em prosa. É a consciência desse tempo monstruoso, que perpassa o passado saxão e bárbaro que ele se atribuía, assim como o tempo de revoluções e derrotas que viveu, assim como nosso passado do século XX, e presente e futuro, e futuro do futuro, e que é o espinho no tempo do Ocidente sem que se confunda com o mesmo, esta consciência é que permite entender de novo o que seja delicadeza. Rimbaud é o poeta do dilúvio, aquele que escreve do lugar da catástrofe-redenção iminente, e que entende que esta iminência nunca se cumprirá. Mas a impossibilidade não impede comunicação. Não impede a delicadeza que é mais perversa que a própria crueldade. E, especialmente, supera o silenciamento balidor dos rebanhos.

Há talvez uma estrutura subjacente aos sentidos fragmentários que são a obra de Rimbaud, uma espécie de roteiro iniciático que nos leva das pequenas perversidades terríveis como a delicadeza à transfiguração diluviana e à ascensão. Talvez as poucas páginas de sua obra funcionem mais ou menos como a imagem ambígua de um guarda, que impede a passagem, mas é o único que pode franqueá-la. Ser um filho do sol, mas entendendo que este lugar divino não é do conforto, mas do desabrigo.



Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

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