poemas - leonardo gandolfi
– Quem são estes?
Os pássaros aos poucos pousam no que sobra;
o pouso repetindo-se até haver árvores.
Espécie de equilíbrio natural nos ciclos
que haja ainda e a partir de agora apenas árvores.
E por haver apenas árvores, chego ao
cuidado que se ganha em se perder tais pássaros.
Assim, em cada projeção, seu negativo;
no que algo se levanta, algo também cai.
Compensação e equivalência. Revoada.
Os pássaros e as árvores segundo os peixes
que ausentes marianne moore quis próximos ao jade.
Em outro lugar deixo um jornal sobre a mesa.
As coisas são somente por faltarem todas.
Substituição e excesso. Continua.
A demora do detetive
Posso perfeitamente estar aqui,
disse, é uma questão de referência.
Você olha nos olhos do seu assassino
e sim são como os dois olhos do seu cachorro.
Às vezes quer voltar, mas sempre segue.
Na cena um homem também olha para trás,
talvez veja o que vemos, talvez não.
Perfeitamente poderia estar aqui, disse,
mas nada disso vale muito a pena.
Um passo e pronto, nunca achei que fosse você.
Espero que o espírito destes versos, mesmo acreditando no desarmamento e em outras políticas realmente bem-vindas, venha em defesa do assassino e de seus motivos um tanto escusos, porque pessoais.
Sim, sou aquele que olha para trás alguns
minutos antes. Faça o que tem que fazer,
quem sabe não é isso o que também faríamos.
Ele ainda é seu assassino. Um instante,
por que não é você quem segura o revólver?
La muerte de Tony Bennett
Quiero decirlos cómo todos trajimos
nuestras vidas aquí, para contarlas.
Decir en portugués direita
es decir de las cosas derechas,
o sea, correctas. Y como se sabe, derecha
es también lo que queda acerca de mi mano,
la derecha. Decir en inglés left
es decir de las cosas que siempre
están en el otro lado, el otro lado y mi otra mano,
la izquierda. Left, como también se sabe,
es una conjugación del verbo
dejar. Dejar, una importante acción
con algunos significados. Ejemplo, Tony
Bennett: I left my heart in San Francisco.
Ahora, voy a contarlos cómo también
yo estuve en París, y fui dichoso.
Caminho para San José
(“Half away”, W.H. Auden)
O que está em vermelho indica o começo
do caminho. E em amarelo, sua metade.
Já estas indicações são possíveis campos
de batalha e as letras em gótico marcam
lugares de interesse apenas arqueológico.
É essa a minha herança, a minha divisa.
Aceitar do novelo a linha, um catálogo
dos nomes, datas, barcos que me levam
para atrás das promessas e do esquecimento.
O tal sujeito vai contigo até a torre
de tiro. Daí em diante terá que ir sozinha.
Numa semana ou duas as coisas podem
mudar. Em Bigsweir procure por Kelpie
e não deixe que um tal de Mr. Wren
te veja, senão tudo vai por água baixo.
Não mandarei nenhum telegrama ou dinheiro
ou qualquer coisa assim. Toda batalha
é perdida e se ainda penso ou falo
algo é só para confirmar que sigo
dentro do incêndio, avançando pela parte
mais superficial do dia, sem olhar
para trás à procura de pistas ou marcas
do que achamos que ainda é nosso.
Faz mais de um ano e nada. Para todos
os efeitos não lembramos de você. Algo
mais? Ótimo. Ao chegar, não se esqueça,
mande nem que seja um telegrama.
Quando lembro da minha outra vida,
a que não foi secreta porque nunca
correu o risco de ter sido o oposto disso,
penso num carro de retrovisor partido
lançando-se urgente por estradas,
avenidas, cidades, crianças, canções.
Leonardo Gandolfi nasceu no Rio de Janeiro em Fevereiro de 1981. Foi Professor Substituto de Literatura Portuguesa na UFRJ (2006-2007). Publicou o livro No entanto d’água (7letras, 2006) de onde se retirou o primeiro poema acima.
