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MOVE-SE AMANTE
(recensão a Prelúdio para arco e flecha, de Virgínia Boechat. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2008)
Quando menos se espera, a palavra pode ser dotada de muita coisa. Talvez seja esse o lugar-comum da poesia, a alta: dotar a palavra de algo que não é dela, da palavra, mas do silêncio. Mas o lugar-comum a que quase me rendo é mais comum que bom, pois é, ao menos sob o ponto de vista da tradição, mais gago que comum. Por isso, penso no mais comum dos comuns em literatura portuguesa, a personagem llansolniana Luís Comuns, de Um falcão no punho. Lugar-Comuns: dotar a palavra de poder, poderá dizer Herberto Helder. Lugar-comum: “Quando menos se espera/ a palavra amante tem morros e bondes/ presos por um fio” (p. 13): é muito sugestivo, é um transfúgio: a palavra anda porque é “amante”, e o ato feito é de apropriação e dote. Digo distinto: a “palavra” não diz “amante”, a “palavra” move-se por sua “amante” condição. Condição? Desculpem, sua “amante” situação. O jogo começa, o Prelúdio é para arco e flecha.
“e quando se espera menos” (p. 13) é um livro nas mãos, com capa branca e detalhes de certo Kandinksy, pronto a dizer algo afim ao que Drummond nomeou de As impurezas do branco. De que memória se trata? “já estava aqui antes da linha do Arpoador/ bem antes da pele sob a ponte diária/ concreta quando a ponte nem era para mim/ da família das garças” (p. 16), “Memória”. Ponte, mas “ponte” “para mim”, desde um lugar, sim, de memória, mas sobretudo de desfiliação: “para mim”, “da família das garças”, para mim a metáfora e o arco, a flecha, uma trajetória sem télos nem gana de télos. Por isso, não o télos, mas uma cansada moira, uma “Errata”, “nem espere mais que perder/ um amor na linha do mar nem mais/ que chorar no banho nem menos/ que o aniversário de um amigo/ que beijos urgentes na tarde livre” (p. 36). “a luz do poema é dura” (p. 18), mas ainda assim é “luz”. Mas seu ver, se é deslumbrante, é-o porque perturba a visão, não porque ilumina. Que iluminação poderá advir da poesia?
Que mentira poderá ter a força da mais cortante (o Prelúdio é para arco e flecha, insisto) das verdades? O lugar ainda é da ordem do Comuns [1], o verbo ainda tem uma dimensão de poder. Mas “eu menti/ não tem algas nessa baía”, pois “eu blefei todas as linhas/ que eu tive para te tentar/ acreditar em meio a chumbo e matéria/ orgânica em decomposição” (p. 33). Quando menos se espera, uma impossível inocência arremessa o poeta a seu desespero, a um arco cujo desenho talvez só faça sentido se for lugar-comum e lugar de tangência. “Frágeis somos nós/ que entre o trabalho das horas/ e as horas engasgadas de quem sente culpa/ perdemos somente de nos viver” (p. 21). Acabo de citar o “I” dos “Andresenianos” de Virgínia, que não vê, como Sophia, o mundo como sítio tão frágil: “Frágeis somos nós”, “e mais do que nunca nada que eu cale/ abafa o grito do teu lugar sobre o branco” (p. 24) tão impuro de ter de dizer.
E ter de dizer tu, ter de falar com outro, ter de lançar a flecha: moira, não télos, um perigo, pois, notável: “será conjura?” (p. 27). “Quando abro a janela no meio/ da noite e tudo o que vejo/ à frente é um muro branco/ mais francamente/ me convenço da noite inteira/ da água do mar e do formato/ da rua” (p. 19). Os verbos são no presente: “abro”, “vejo”, “me convenço”; a ação, portanto, é de vigente percepção “quando” “meu espanto é todo/ eu me assombrar// a baía sou eu/ sou eu a baía/ sou eu” (p. 19). Deslumbramento? Sombrio deslumbramento, assombro como terror (“Terror de te amar num sítio tão áspero como o mundo” é o título do “I” dos “Andresenianos”) e traço de obscuridade, não se sentido, mas de efetivas sombras. “a baía sou eu”, é quase um refrão que se fatiga, pois o “muro branco” permite sobre si a inscrição, que é já, por outro lado, uma impureza. Bela coisa, então, essa impureza, que concorre para que o lugar seja mais comum. Dói, mas abre: “Morre-se para alguém em se ficando/ visceralmente imóvel diante/ de um desespero” (p. 34).
“Morre-se” “em se ficando”, e Virgínia realiza uma “dura” abertura dos olhos para um passado tão presente como aberto; “Marie Marguerite Boéchat”: “em uma data fincada que fosse/ em horas manhã ou espera/ num cais// ela subiu naquele navio e nunca/ desembarcou no Brésil” (p. 30). A “data” é “fincada”, o “tempo” é “nunca”, e o poema é o lugar da descoberta. Mas a “data”, no texto, segue “fincada”, o “tempo” segue “nunca”. Mas a atribuição da Boéchat do poema é comum à da Boechat do livro, “duzentos anos seu corpo entre peixes/ bancos de areia e desfiadas perguntas” (p. 30). Perguntas, senão “desfiadas”, desafiantes faz Prelúdio para arco e flecha, e o desafio pode ser à própria história de um nome, ou de uma herança (moira outra vez?) que une Marie Marguerite a Virgínia no que toca a um corpo “entre peixes”, mar e “bancos de areia”: de novo, uma “palavra” corajosa e drasticamente “amante”.
Drasticamente, também, histórica, como em “Cartões de visita – Le Chevalier de Queiroz”: “Cá/ pessoas do singular de outras/ e o muito exatamente por dizer// Inaugura-se o canal” (p. 14). É comum à poeta deste tempo o cartão do poeta (sim, poeta) de outro, espectador assombrado da inauguração do Canal de Suez, assim como cai nas mãos da missivista deste tempo (sim, missivista; não há o terrível outro norteando muita coisa nesse livro?) certa “Carta da baía”: “por força dos inquietos materiais/ que se operam no terreno arenoso/ das palavras era 8 de maio// de 1558 e de Manuel da Nóbrega/ ficam projetos para algodão e feiticeiros/ e ficam o litoral a carta a língua” (p. 29) pois: a “carta” me chega, a “língua” me usa e a prestidigitação me cabe: “a baía sou eu/ sou eu a baía/ sou eu”. Também sou uns tempos comuns, pois “fica a data no formato de não/ ser a mesma” (p. 29), de não me ser, no entanto, tão alheia assim. Alheios tampouco são alguns lugares do livro, mas sempre, de algum modo, assombrosos. São Paulo, por exemplo: “São Paulo tem mamilos de aço/ armados no alto dos prédios/ onde à noite as estrelas piscam/ presas”. É comum essa cidade, “Mas e o Miguel tão pequeno que sopra/ sono e pausa na manhã das buzinas?” (p. 40).
Calton Hill, por exemplo, “Com João na ruína do Calton Hill”, “ali” onde “trancei meus dedos/ com cabelos muito lisos e outras folhas”. Todavia, “atrás todas as terras/ ficaram muito antigas// e eu não fui a Edimburgo” (p. 41). Tampouco a “Kamchatka”, “território impronunciável quase/ esse é o nome/ se resistir é possível” (p. 42). O lugar existe, e não apenas no filme de Marcelo Piñeyro, mas é com Kamchatka, “território” simbólico em película, que o poema conversa. Aliás, mais uma vez Virgínia fala com outro, e digo que um traço que se destaca em Prelúdio para arco e flecha é uma série de relações que não se ficam, em hipótese alguma, pela mera demarcação cultural, ou pelo jogo do intertexto. Tampouco se presentifica um escolhido elenco de vozes, pois os poemas criam relações com diversos outros, e não se bastam pelo estatuto da cultura ou do cânone. Outro outro: “Para esses quinhentos/ quilômetros que hoje desenrolo/ na frente da tua porta serem/ passados a asfalto/ em tinta e meia-volta// e volta e meia virarem/ uma chegada sob a medida longa/ de tão perto apenas olhar e sorrir/ daquilo que inteiro nunca é dito/ em frase” (p. 45).
“e mais do que nunca nada que eu cale/ abafa o grito do teu lugar sobre o branco”; e “de tão perto apenas olhar e sorrir/ daquilo que inteiro nunca é dito/ em frase”. “depois são outros quinhentos” (p. 45), depois é “palavra” de novo silente e “amante”, um poder de centro ilocalizável que gosto de considerar a partir de um verso do último poema do livro, “Balé à água do rio”: “rezo em movimento” (p. 49). “Quando menos se espera/ a palavra amante tem morros e bondes/ presos por um fio”, no enorme risco do assombro e da perplexidade: “amante, e “por um fio”, por umas páginas, por um livro.
NOTA
[1] Nesta altura, não creio ser necessário expressar o quanto essa criação onomástica llansolniana vai além do nome próprio que lha deu origem. Parte dele, fala com ele, mas o ultrapassa. E quem gosta de pôr, nesse eixo comum, as duas poetas a conversar sou eu, não necessariamente elas.
Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa.
