marienbad
7. Elogio aos caçadores. E porque a beleza é este confuso jogo de caça em que nada pode ser ganho, dado que o prêmio não faz mais que adiar um pouco a inanição, faz-se necessário um elogio aos caçadores, uma compaixão renovada por sua solidão, movimento e tragédia. A beleza como lugar de recusa: campo negativo, lugar do não, está distante demais de alcance e mesmo a fantasia se esgota em certo ponto. O não dito, o não visto, o não sentido, o não, o não, que palavra na détente pode aproximá-la, ela que é necessariamente objeto no velho rito da caça? Ela, que de tão oculta consegue inverter o jogo e tornar caçador em caçado?
E que arma, ou astúcia ou armadilha pode fazer este nada que erra paralisar-se e permitir o velho vício humano da contemplação? Pois a beleza é suspensa, mas não para seus olhos, não como um tigre em uma jaula que delicadamente lhe permite imaginar o gesto real do salto. Ela é o outro tigre, aquele que não está sendo esperado, o formidável, o terrível, o que assombra e que flui sem que percebido já esteja sobre a presa. E simultaneamente a presa, e simultaneamente o salto, e em qualquer caso nada que seja concessível à parca economia de saberes com que tentamos organizar nossa vida. Este é um outro reino, não tem nada a ver com a cama, ou o almoço ou o beijo de boa noite. Na verdade, estes gestos o afastam.
Pois é um jogo de caça, talvez salto de tigre blakeano: imagem do divino, e desafio ao divino, e o não-humano, mas o destino do humano após renovado, chama acesa na floresta noturna e acima de tudo o repositório de já não se sabe quantos séculos de cultura ocidental: este tigre. Ou talvez uma outra imagem, uma aranha que captura sua presa, e o jogo agônico, muito civilizado, de teia, presa e aranha, este ser de elegância dolorosa já que sendo a própria imagem da simetria nega qualquer parentesco com o que seja o humano. Não há maior escárnio a nosso orgulho que uma aranha, nenhum ser mais perfeito em sua dedicação ao jogo essencial, nada mais distante de nossas pobres horas de vigília.
Há uma rasura no velho código pelo qual organizamos nosso dia. Esta letra apagada fala dos caçadores, de seu rito e lei. E por precisarmos adivinhar os termos e a linguagem exata nunca conseguimos reproduzi-los. E exatamente por isso é ao redor da encenação destas palavras perdidas que nosso esforço mais profundo se dirige. O divino que não há é caçador ou jogo de caça, assim como o amor e a morte. Daí seu poder silencioso e sua infinita capacidade de nos humilhar e salvar.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

