na relva do texto machadiano: uma entrevista com marta de senna
Marta de Senna foi professora de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente é pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa. Sobre Machado de Assis, publicou O olhar oblíquo do Bruxo e Alusão e zombaria , ambos com segunda edição revista e modificada em 2008; também este ano disponibilizou online um site de busca de citações e alusões presentes na ficção machadiana: www.machadodeassis.net . Em entrevista à revista pequena morte. , ela fala um pouco sobre sua pesquisa, através da qual se vê um autor sorrateiro que, muitas vezes, camufla seus ardis na relva do texto.

Entrevista concedida a Marcelo da Rocha Lima Diego.
Considerando que este ano comemora-se o centenário de morte de Machado de Assis, uma questão sempre presente é: como ler Machado, hoje? Entrando, mais especificamente, no campo das citações e alusões na ficção machadiana, pergunto: em que aspecto esse expediente, tão habilmente manuseado pelo Bruxo do Cosme Velho, contribui para tornar sua literatura atemporal e em que medida a circunscreve em seu tempo?
Bem, há duas perguntas nesta pergunta. Por isso, vou responder por partes. Em primeiro lugar, acho que se deve e se pode ler Machado hoje como se deveu e se pôde no passado e se deverá e se poderá lê-lo no futuro: como um clássico, um escritor universal, cujos romances e contos tratam de questões essenciais da humanidade e de seu estar-no-mundo. Se a linguagem pode soar hoje um pouco antiquada, assim também a de Stendhal aos franceses do século XXI ou, para radicalizar, a de Sófocles, para os gregos de hoje. E não é por isso que Stendhal e Sófocles deixarão de ser lidos. Penso isto: Machado é um clássico e, como tal, permanecerá. Quanto às citações e alusões, sim, creio que elas podem funcionar como uma espécie de salvo-conduto para a atemporalidade e para a universalidade. Não creio que o circunscrevam no seu tempo, porque não se limitam à sua circunstância histórica. Pelo contrário, atravessam 28 séculos, provêm de diferentes latitudes. Na medida em que Machado tem a habilidade de convocá-las para o espaço de seus textos e de fazê-las renderem dividendos que os beneficiam (a eles, textos), creio firmemente que são um expediente a serviço da transcendência de sua obra em relação ao tempo histórico em que viveu, à cultura em que estava inserido e à língua em que se expressou.
A sua pesquisa faz um inventário acurado das citações e alusões na ficção de Machado de Assis, elencando as referências que estão textualmente citadas ou aludidas. Nela podemos perceber que alguns dos autores que exerceram maior influência sobre o escritor brasileiro – como Sterne, por exemplo – são bem pouco citados pelo escritor; e que, por outro lado, as referências religiosas são inúmeras, não obstante o autor seja bastante cético quanto às doutrinas da Igreja. Há alguma razão intrínseca para essa inversão de sinais entre o que influenciou Machado e o que ele, de fato, cita; ou, de outro modo: como equacionar a relação entre influência e referência em Machado?
Novamente a pergunta se desdobra em mais de uma. Penso que o fato de ele citar pouco quem mais o influencia é sintomático de um escritor que, como a sua personagem mais famosa, é oblíquo e dissimulado. Sterne, pouquíssimo citado explicitamente, é uma presença subjacente à técnica narrativa machadiana. Camilo Castelo Branco, nunca citado em qualquer dos romances ou contos, é outro autor com quem o nosso Bruxo tem afinidades claríssimas, não somente técnicas, mas no tipo de humor também. As referências religiosas não têm, a meu ver, nenhuma importância religiosa intrínseca. Machado cita a Bíblia (mais o Antigo do que o Novo Testamento) como a um livro de sabedoria, como a um repositório da cultura e da tradição judaico-cristãs. E cita as Escrituras também para subvertê-las, para miná-las pela base, como quando diz, por exemplo: “Não só de fé vive o homem, mas também de pão e seus compostos e similares”, virando do avesso a palavra bíblica, que diz: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” (Mateus 4: 4) Penso que uma das riquezas da literatura de Machado de Assis é, precisamente, essa subversão, às vezes explícita, às vezes subliminar, de crenças, ideologias, teorias, filosofias… E, não raro, vale-se da citação e da alusão para proceder a essa subversão. Basta pensar no Humanitismo de Quincas Borba em alusão demolidora ao Positivismo e à lei da sobrevivência do mais forte, que Spencer introduziu no darwinismo social… Não sei se eu seria capaz de equacionar a relação entre influência e referência em Machado, mas na verdade não acho que esta seja uma questão relevante, porque equacioná-la não nos levaria, penso eu, a lê-lo melhor, a aproveitá-lo melhor, a degustá-lo melhor.
A senhora revela, em sua pesquisa, que, não obstante a enorme erudição de Machado, há algumas citações nas quais ele erra, “cochila”; do mesmo modo, outro pesquisador atento poderia apontar, talvez, alguns raros momentos nos quais o autor foge à norma culta da língua portuguesa; e, igualmente, a crítica é consensual em declarar certas produções do autor como menores. Assim, hoje, com cem anos de distanciamento, é possível perceber as “falhas” do Bruxo, o que mostra que até um gênio comete imperfeições. Como lidar com esse lado mais fraco de um autor tão forte – e tão mitificado – ; ou, em outras palavras: como olhar para o que há de pequeno dentro do grande?
Não vejo problema algum em detectar erros nas citações, em apontar fugas ao padrão culto da língua. Essas coisas não diminuem em nada o escritor maravilhoso que ele é. Nenhum artista é igual o tempo todo. Todo grande artista tem obras menores. O que eu defendo é que mesmo lá nas obras “menores”, da juventude, Machado já revela certa habilidade, certa “maldade” que desabrochariam a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e de Papéis avulsos . (1882) Eu costumo dizer, que, tal como ele mesmo diz de uma personagem de A mão e a luva (1874), latet anguis , ou seja, “jaz uma serpente”, oculta na relva, como a de Virgílio, e igualmente traiçoeira, só que na “relva” do texto machadiano. Essa serpente é ele mesmo, que, desde os primeiros livros, já começa a se construir como o mais sorrateiro narrador da literatura brasileira. Não vejo problema em lidar com o “pequeno” diante do “grande”. Que se escolha lidar com o “grande”. Eu, enquanto puder escolher, vou preferir trabalhar com “Missa do galo” ou “Singular ocorrência” a lidar com um conto como “Umas férias” ou “Pai contra mãe”. Mas se tiver de lidar com eles, tenho certeza de que lá, escondida na tal “relva”, vai estar a serpente/Machado sorrateira.
Na biblioteca de Machado de Assis – tanto na factual, cujo inventário foi, dentro do possível, recomposto por Jean-Michel Massa, quanto na que se depreende através das referências feitas em sua obra – é predominante a presença estrangeira; no entanto, o autor foi figura central na vida literária de seu tempo, tendo, inclusive, fundado a Academia Brasileira de Letras. À luz dessa aparente contradição, em que planos é possível situar o diálogo de Machado com as literaturas estrangeiras e com a brasileira?
Arrisco-me a dizer que são de duas naturezas as razões que levam Machado a citar tão pouco os autores brasileiros e tanto, tanto, os estrangeiros: a primeira natureza é uma natureza estética: creio que Machado se sabia diferenciado no panorama da literatura nacional e, por causa disso, ou para afirmar sibilinamente isso, cita pouco a literatura do Brasil: mostra-se distante dela, com as exceções conhecidas de Basílio da Gama, Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Sousa Caldas, Casimiro de Abreu, Macedo (que cita com alguma maldade) e José de Alencar. A segunda natureza é uma natureza política: um homem que viria a presidir a Academia Brasileira de Letras era por força um homem discreto: citar uns era omitir outros. Creio que optou por citar somente os “clássicos”, os mortos. O próprio Alencar morreu em 1877, quando o melhor de Machado ainda estava por vir. É como se ele não quisesse comprometer-se com referências ao que o tempo ainda não havia filtrado e, ao mesmo tempo, quisesse indicar-nos algumas pistas de seus critérios de gosto. Por exemplo: não parece coerente com Machado nunca citar Castro Alves? Claro que parece. Do mesmo modo que ele só menciona o Padre Antônio Vieira uma vez em seus romances, e vive citando o Padre Manuel Bernardes. Para bom entendedor… meia citação basta. Ou não?
A ferramenta da intertextualidade requer, para que as referências sejam compreendidas, que autor e leitor compartilhem conhecimentos, leituras. A expectativa de Machado de Assis quanto ao seu leitor, portanto, devia ser alta, pois a sua enciclopédia mental é vastíssima e as estratégias através das quais insere esses dados no texto são altamente complexas, sendo objeto de exegese até hoje. Deste modo, a abundância de referências intertextuais na ficção machadiana poderia caracterizar o autor como elitista ou hermético?
Em seu livro, a meu ver fundamental, sobre os leitores de Machado (Os leitores de Machado de Assis : o romance machadiano e o público de literatura no século 19), Hélio de Seixas Guimarães esclarece que, tendo o governo imperial ordenado a realização de um censo em 1872, os resultados, publicados em 1876, foram desanimadores: havia mais de 84% de analfabetos na população brasileira. Logo, Machado sabia que escrevia para poucos. De fato, parece escrever para os seus pares, capazes sem dúvida de decifrar-lhe as referências, como um Joaquim Nabuco, um Capistrano de Abreu, um Francisco Otaviano, um Quintino Bocaiúva. O que quero dizer é que, na sua contemporaneidade brasileira, os poucos leitores que havia eram leitores cultos, leitores na sua maioria capazes de identificar as alusões. Não podemos esquecer, também, o papel dos jornais na difusão dessa “cultura literária” de salão, cuja leitura pelo público de então o habilitava, de certa maneira, a conhecer o código machadiano. Penso, no entanto, que somente o tempo, o distanciamento permitiram que pudéssemos observar a riqueza e a funcionalidade do universo intertextual na urdidura do texto machadiano. Neste sentido, considero-me uma leitora privilegiada por estar lendo e pesquisando e curtindo esses textos com tantas décadas de distância entre mim e a primeira publicação desses textos. Acresce que ler Machado de Assis depois de Augusto Meyer, de Eugênio Gomes, de Alfredo Bosi, de Silviano Santiago, de Roberto Schwarz é um privilégio. Para o “hermetismo” ou “elitismo” das citações machadianas, gabo-me de ter fabricado, com a ajuda de uma equipe maravilhosa, um remedinho: www.machadodeassis.net . Lá o leitor de hoje, seja ele o estudante de ensino médio, seja o universitário, seja mesmo o pesquisador de nível mais avançado encontrará uma ferramenta de trabalho que, sem falsa modéstia, acho que poderá lhe ser útil: um site de busca que lhe permitirá identificar autores, personagens, obras, fatos, lugares, fontes anônimas ou coletivas que Machado cita ou a que faz alusão em seus romances e contos. É o meu presente para o autor e para seus leitores neste ano de celebrações machadianas.
Marcelo da Rocha Lima Diego é aluno da Faculdade de Letras da UFRJ e bolsista da Fundação Casa de Rui Barbosa.
