seis poemas - paulo henriques britto


POEMA DE NATAL [1]

Eis o prazer supremo, que não cansa jamais:
idolatrar o que criamos
à nossa vera imagem e semelhança.

Nada mais digno do mais puro amor
que essa anunciadíssima criança,
em berço ou pálio ou página ou o que for,

Desde que seja nossa, e na medida
exata do desejo, nem maior
nem mais funda que a precisa ferida

que para preencher foi ela concebida.

OSSOS DO OFÍCIO [2]

O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.

Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.

Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir – e aí está o fascínio –
com a rima atravessada na garganta.

Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não e o que se canta,

mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta

é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,

depois que a rima atravessa a garganta.

III (de Três pactos de morte ) [3]

Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

Nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.

VILEGIATURA [4]

Munidos de maçãs, lápis e fósforos,
conquistaremos Nínive amanhã,
se não der praia e a noite for de sono.
Porque afinal os dias são dourados
e tudo é matinal nessa estação
de água fresca, madrigais e cópulas.

São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,
tantas razões de se riscar um fósforo,
é tão horizontal essa estação,
que é puro engodo a idéia do amanhã.
E por que não beber o sol dourado
enquanto não nos sobrevém o sono?

Idéias sussurradas pelo sono,
pela sofreguidão de muitas cópulas.
Enquanto isso, Nínive dourada
aguarda a combustão de nossos fósforos
ao primeiro suspiro da manhã.
rechacemos o torpor da estação.

(e como é modorrenta essa estação,
tempo de bandolim, maçãs e sono!)
e vamos nus, na bruma da manhã,
buscar a glória, traduzida em cópulas,
claustros, tributos, castiçais e fósforos,
caixas de música e ídolos dourados.

Tomaremos a cidade dourada
na hora derradeira da estação,
quando já não restar nem mais um fósforo,
uma gota de sol, de céu, de sono.
A entrada triunfal será uma cópula
na imensidão da última manhã.

Quando acordarmos, já será amanhã,
os olhos turvos de sonhos dourados,
as peles mornas recendendo a cópulas,
bagagens esquecidas na estação,
jornais, explicações, ressaca e sono,
um alvoroço de café e fósforos.

Os fósforos primeiros da manhã
riscam o sono e o sonho do Eldorado.
Dessa estação só vão restar as cópulas.

PESSOANA [5]

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.

SCHERZO [6]

Ontem à noite, eu e você,
em plena cumplicidade,
em vez de fechar as janelas
como todo mundo faz
deixamos as nossas abertas
só para ver o que ia dar.

Deu nisso:
varreu as ruas um vento
saído de nossas janelas,
de dentro de nossas gavetas
onde nós há tanto tempo
guardávamos tempestades
pra algum dia especial
(que acabou sendo ontem).
O vento levou pedaços
de céu que atravancavam
nossos sóbrios conjugados;
enormes nuvens incômodas
rolaram janela afora
feito lerdos paquidermes
e se esparramaram a valer.
O ar fresco inesperado
de nossos apartamentos
causou transtornos na rua:
os transeuntes, coitados,
tossiam intoxicados
por excesso de oxigênio;
cambaleavam às tontas
pelas calçadas vazias.
Fui eu o primeiro a jogar
em baldes pela janela
a água clara que jorrava
de fontes desconhecidas
em áreas inexploradas
sob a cama e atrás do armário,
mas foi você quem soltou
do alto do oitavo andar
as primeiras plantas aquáticas,
os peixes, répteis e aves;
eu, porém, instituí
o pêlo e o viviparismo
dos mamíferos essenciais.

E como as ruas já estavam
inteiramente povoadas,
e como já os postes da Light
todos tinham evoluído
em árvores colossais,
e como ainda não eram
nem três horas da manhã
e já estava terminado
o grosso da Criação,
descemos até a rua
em busca de um bar aberto.
No primeiro que encontramos
nossos milagres caseiros
eram o assunto geral;
e nós, sedentos e incógnitos,
pedimos duas cervejas
e ficamos contemplando
sem espanto nem orgulho
a grama tenra e miúda

que brotava a nossos pés.

NOTAS

[1] De Tarde , 2007.

[2] De Tarde , id.

[3] De Macau , 2003.

[4] De Trovar claro , 1997.

[5] De Trovar claro , id.

[6] De Mínima lírica , 1989.

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Formou-se em línguas portuguesa e inglesa na PUC-Rio, e lá concluiu o mestrado em língua portuguesa; recebeu o título de Notório Saber nessa instituição, onde atua em oficinas de tradução e criação literária na graduação e supervisiona uma linha de pesquisa sobre tradução de poesia e outra sobre poesia brasileira contemporânea na pós-graduação. Traduziu, além de obras de ficção de vários autores, a poesia de Byron, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Allen Ginsberg e Ted Hughes. Publicou cinco livros de poesia — entre eles, Trovar claro (1997), Macau (2003) e Tarde (2007) — e um volume de contos, Paraísos artificiais (2004). Uma antologia de poemas seus foi lançada nos Estados Unidos, The clean shirt of it, com tradução e introdução de Idra Novey (2007).

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