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8. Soma zero. Soma zero é uma expressão da teoria dos jogos e da economia, estas disciplinas meio diabólicas que às vezes dão conta do humano melhor do que a mais sofisticada filosofia. É toda situação em que os ganhos de um participante vão corresponder exatamente às perdas de outro. Temos um bolo, o tamanho da minha fatia vai definir o quanto os outros comensais vão poder dividir entre si. Temos um copo cheio, para que ele fique à metade é necessário que alguém tenha bebido antes de mim, etc, etc. Por fim, é a maneira que a ordem física do universo foi concebida no século XIX, meio que confirmando a idéia de Lavoisier de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Para que haja luz e calor é necessário que o hidrogênio de uma estrela queime, tudo é consumo e transformação, não há ganho de uma parte sem perda de outra. No discurso econômico de nosso tempo, não existe almoço grátis.

É interessante pensar o quanto a idéia de um sistema em equilíbrio absoluto interessou os campos que vão além das ciências físicas. O modelo da psiquê humana de Freud tenta se ater a estas leis mecânicas: estímulo, que é armazenado na forma de memória, que por sua vez é tornado novamente estímulo em um círculo de transferência de energia em que o sujeito é o centro e também o paciente. O gozo consome “energias psíquicas” geradas pela libido, que por sua vez é gerado pelo ponto cego que é a mistura do orgânico com o social. Mas nada é perdido, tudo se transforma em uma série contínua e interminável de imagens e máscaras. O marxismo da mesma forma repete esta mecânica, para que haja lucro é preciso que haja exploração, para que haja acúmulo de riqueza é necessário que as energias titânicas da natureza sejam transformadas pela nova natureza, o processo econômico e social. Até Machado de Assis se aventura por esta nova mecânica celeste com o lema de Brás Cubas “ao vencedor as batatas”. O fato de Machado ter posto o “humanitas” de Cubas em uma chave irônica e algo farsesca é um bom indício de sua genialidade.

O fantasma do limite intransponível que as várias teorias da soma zero projetam sobre a nossa pobre vida civil não é algo a se descartar como coisa sem importância. É o tipo de teoria que sustenta as várias formas de escravidão que o trabalho e o consumo mantém em nossa época. É também o que concede certa complexidade e racionalidade ao discurso dos sacerdotes dos novos tempos, os economistas, que de outra forma seriam simplesmente cínicos. Mesmo agora, que o novo liberalismo parece ter falhado para além da recuperação, justificação ou simpatia, seu fracasso parece estar ancorado na mesma lógica que justificava sua dureza: não há riqueza sem que haja destruição em algum momento, então o preço da riqueza é o delicado equilíbrio climático do planeta. Se os chineses ficam mais ricos, o petróleo fica mais caro, se o petróleo fica mais caro, a inflação sobe, se a inflação sobe etc etc, no grande ciclo de causa e conseqüência.

A questão é que as teorias de soma zero são apenas metade da narrativa dos esforços humanos. A outra metade diz respeito exatamente àquilo que não pode ser quantificado, em que um determinado esforço consegue gerar mais bens do que se esperaria a princípio, e em que a ordem das moléculas e das partículas não serve como modelo, antes é uma forma de véu. Quem pode dizer, por exemplo, qual a conseqüência do gasto de tempo que temos com palavras? O tempo que levei para escrever este breve exercício, que você do outro lado terá para o ler, e que não será talvez muito diferente do tempo que Shakespeare levou para escrever alguns versos, o monólogo de Hamlet sobre a existência, digamos. Este é sempre um tempo quantificável, alguns minutos para os três casos, minutos orgânicos em que tanta energia foi gasta, em que tanto tempo foi gasto, e o meu tempo será o tempo de uma vida, como o seu tempo e como o tempo de Shakespeare. Mas qual o lucro perceptível, se a arte é este território não-econômico? Borges brinca com essa idéia em um conto, “Funes, o memorioso”, em que um homem ganha a memória total de Shakespeare. O problema é que esta memória é simplesmente a experiência de um homem, de qualquer homem. O que a torna a aberração magnífica das peças do dramaturgo é qualquer coisa de inqualificável, incompreensível, intransmissível. A arte, enfim. Esta arte que nega a parte da vida que é o relógio das estrelas e dos corpos para criar um outro, em que tempo, matéria e energia não se correspondem, e Einstein incide em erro. O tempo do amor, da luta, do sofrimento, de tudo aquilo que ainda pode nos redimir do ordenado e do ordinário.

Se acaso, por um destes gestos de ilusionista, pudéssemos aplicar ao resto da vida a lógica que rege sua parte mais augusta, estaríamos no limiar de uma nova renascença. Não estamos prontos ainda para progresso real, isto me parece bastante claro, mas é possível talvez começar a imaginar de novo um sentido diverso para esta palavra magnética, o zero. Não o zero do equilíbrio e das constantes, mas o outro, o do número impossível, inexistente na natureza, e que no entanto é o fundamento de toda matemática.

Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

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