passagem por goa - evandro domingues


Vivo com Goa – e Goa comigo – há já cinco anos, desde que me interessei pela literatura desta antiga colônia portuguesa. A paixão tornou-se séria quando fui aceito no programa de Doutorado da UFF para estudar literatura goesa contemporânea em língua portuguesa. Deram asas à cobra. Viajante incansável, achei que não ficava bonito escrever e ler tanto sobre Goa sem lá ir conhecer aquela realidade. Tinha, então, desculpa para, enfim, conhecer a Índia, paixão antiga, adolescente, mas que andava meio adormecida.

Fui duas vezes: em janeiro de 2007 e em janeiro deste ano, mas este pequeno texto trata mais da viagem primeira. Já no caminho para o hotel, o inesquecível: são tantas as crianças, tantos os sáris esvoaçantes, tantas as mangueiras ancestrais. Os pontos de ônibus, lotados, nas entradas das aldeias. À tarde vou andar, meto-me por Caranzalem: as corumbinas peixeiras, as casas cristãs, os tulsis das casas hindus. O quarto do hotel tem TV de plasma e uma vela com caixa de fósforos. Isto é a Índia. O dever de casa que me imponho é domar os sentidos, apaziguar um pouco estas algazarras, este soco nos olhos e nos ouvidos. Mas, felizmente, não conseguirei.

No Museu Arqueológico de Velha Goa, conheço a famosa estátua de Camões, que ficava no centro da antiga capital. Quando Goa é incorporada à União Indiana em 1961, depois de 451 anos de colonização, surge o dilema: que fazer com a estátua? Ela continua no centro de Velha Goa até 1983, quando decidem que é uma lembrança inaceitável da época colonial e, portanto, não pode continuar onde está. Alguns radicais propuseram explodi-la, quando autoridades houveram por bem removê-la para o museu. Penso esta estátua como uma metonímia do legado português em Goa. “Que faremos com esta estátua?”, perguntaram-se goeses desejosos de construir uma nova realidade que, por causa da colonização, esteve sempre de costas voltadas para a Índia. Que faremos com esta língua, com estes casarões, com estas igrejas e capelas que coalham a paisagem, com este chutney de bacalhau? Uma estátua até se explode, mas e o resto? E a Igreja de Bom Jesus, a do corpo incorrupto de São Francisco Xavier, visitada igualmente por cristãos e hindus descalços?

Não fui a Goa em busca de permanências de essências de uma cultura luso-tropical, porque isso não existe. São Francisco Xavier é um santo da Índia, como o catolicismo é já, hoje, uma religião, senão indiana, da Índia, uma delas, principalmente se levarmos em consideração as práticas religiosas banhadas de mestiçagem. O mesmo se dá com a língua portuguesa. Neste país que tudo recicla (“Na Índia não se desperdiça nada, nem impérios caídos”), a “Índia Latina” é cheia de indianidades, já é abarrotada de “Indian style”, de que o trânsito é ótimo exemplo. Na motocicleta viaja a família: marido e mulher, entre eles três filhos. Os carros, os ônibus, os rickshaws, as vacas, os pedestres, as lambretas, os búfalos. Faltam calçadas e sinais de trânsito. Uma rua estreita é de mão dupla. Veículos cruzam-se e milímetros os separam. Tiram tinta do retrovisor a todo instante. Please horn. Blow OK Horn. São milhares e milhares de deuses. Ainda que um se distraia, sempre haverá um outro atento.

Já próximo de encerrar a viagem, um vendedor de castanhas de caju me pergunta se sou indiano. Não posso crer em sua pergunta. Ele, que é de Gujarat, só pode estar troçando deste brasileiro que, apesar de muito sol goês, é assaz branquinho, denunciando sangues de Domingues e von Sydows que o geraram. Mas ele falava sério. Na verdade, já haviam me dito isto: passado um ano na Índia, eu me tornaria indiano. Para este simpático vendedor de castanhas, bastou um punhado de dias…

No último dia, deixamos que as recepcionistas do hotel, em meio a gostosas risadas, pintassem em nossas testas o rubro cucume, tão caracteristicamente indiano, que exibimos, felizes, triunfais, por todo o hotel, por toda Pangim. Se um outro vendedor de caju me aparecesse e fizesse a mesma pergunta: “Você é indiano?”, hoje responderia: “Um pouco.” E é provável que eu termine esta tese mais indiano do que quando a comecei. Nas palavras de Gruzinski, “o privilégio de se pertencer a vários mundos numa só vida”.

Talvez seja o encantador de serpentes!

Mas nosso olhos não chegam a esses lugares
De onde vem sua música.

(São uns lugares de luar, de rio, de pedra noturna,
onde o sonho do mundo apaziguado repousa.)

Mas talvez seja ele. (Cecília Meireles)

Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era cor de bibe
E tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz (Ruy Bello)

Sua voz quase imperceptível
parecia cantar – parecia rezar
e apenas suplicava.
E tinha o mundo em seus olhos de opala. (Cecília Meireles)

Este povo que se basta a si próprio, seja na graça como na desgraça, está condenado a encontrar os caminhos do seu destino, dê por onde der! (Orlando da Costa)

No fim do mundo estava o princípio da minha vida. Mas eu ainda não sabia. (Francisco Camacho)

Evandro Domingues terminou o Doutorado em abril deste ano, mas a paixão por Goa continua. Em janeiro próximo, porém, não volta, já que se prepara para uma viagem maior: vai ser pai.

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