editorial.
Inverno. E morre-se outra vez, na transparência do gozo e na falta de transparência da reflexão e da arte. A imagem pode ser a do nevoeiro numa via expressa, pois os desenhos são visíveis, mas nada claros. São, porém, belos. E a beleza continua a ser nosso difícil lugar, entre a permanência da tragédia, dirá Adriano de Paula, e a permanência do comemorável Machado de Assis, como bem aponta Marta de Senna, uma machadiana de muitas faces, em sua entrevista.
Invernal beleza, lugar da recusa, lugar negativo para nosso colunista Ricardo Pinto de Souza, lugar da novidade amante que é a poesia de Virgínia Boechat para nosso colunista Luis Maffei. “De quintas, subúrbios e moinhos de vento” fala-nos Ary Pimentel, com Buenos Aires em foco, e faz, decerto, bastante frio em Buenos Aires. A festa de São Benedito em Aparecida/SP é contemplada em nossa galeria pelo fotógrafo Márcio RM, numa luz de sol que traz um inverno talvez na funda alma.
Paulo Henriques Britto é o poeta desta edição, e nada poderia ser mais adequado: haverá, na atual poesia brasileira, dicção mais capaz de mesclar sol e nuvens, sol e frio, cultura e inquietude? Ganha vida outra pequena morte., livre de cobertores e já sabedora de que a nudez, mesmo sem transparência, é um belo modo de estar no mundo.
os editores.